quinta-feira, 10 de maio de 2018

O CONVITE




Bernardo  parava todos os dias no mesmo estacionamento ao lado da empresa em que trabalhava. Naquele horário rotineiro estacionava um casal bonito e charmoso. 

O homem se despedia da mulher e vestido com requinte descia espalhando seu perfume. A elegância de ambos chamava a tenção do advogado que em início de carreira sonhava com amigos influentes que pudessem ajudá-lo, o apresentando às pessoas certas...

Ele sabia que mais um pouco e encontraria o homem no elevador.Tanto fez que uma conversa rápida se iniciou e dali para o começo de uma amizade foi um pulo. Bernardo entrou para a relação com o novo conhecido cheio de expectativas. 

Certamente o tal homem supriria sua necessidade de novos contatos, faria apresentações interessantes para ele e o introduziria no pequeno e fechado círculo das influências preciosas do mundo corporativo.

Ele tinha aprendido com os pais que não se enterra o tempo na areia. Tudo precisa ser feito com um propósito, racionalmente, pois a vida é jogo certo para aqueles que sabem que precisam ganhar. 

A verdade é que essa mentalidade já havia trazido um tanto de frustrações e decepções para o advogado que muitas vezes esperava retribuições e valorização em tudo o que fazia. Ele precisava ser visto, e ser lembrado sempre, por todos. Raramente parava para observar os jogos de manipulação que se estabeleciam nessas relações de toma lá , dá cá...

Os convites feitos e recebidos sempre tinham um propósito, algum ganho ou conquista envolvidos. Existem muitos Bernardos por aí. Calculando e medindo suas ações pelo retorno social, afetivo e financeiro que possam trazer. 

Há sempre recompensa envolvida. Há sempre condicionamentos tácitos escondidos. Há sempre manipulação em torno da entrega.

Mas sentimentos genuínos não são mercadorias, moedas de troca. São construção, são alimento para nosso Espírito sedento de autenticidade. Quando depositamos no outro nossa carência e vazio esperando que o buraco interno (seja ele do tipo que for) seja fechado por terceiros, entramos num jogo de exploração como Bernardo.

Se for possível uma paradinha para nos avaliarmos, perceberemos que jogos de manipulação nos distanciam de nós mesmos e do sentido de nossa existência. Quem somos afinal? O que pretendemos e buscamos? Por que estamos aqui? 

Não viemos ao mundo para desempenhar papéis, para agradar aos outros, mas para trilharmos o belo caminho do amar e respeitar a si mesmo, para que possamos então amarmos e respeitarmos ao outro...

Se os convites que fazemos para nossa mesa são condicionados a algum tipo de retorno ou interesse pessoal, então nossa mesa é pobre e faminta. Abrir nossa afetividade e assim nossos convites para relações sem interesse e vantagens é edificar uma mesa leal, sincera e verdadeira, rica e nutritiva.
A alma se alimenta e se fortalece.

Compartilhamos então da mesa do Cristo Cósmico que definiu um bom convite do seguinte modo: "Quando derdes um jantar ou uma ceia, não convideis nem vossos amigos, nem vossos irmãos, nem vossos parentes, nem vossos vizinhos que forem ricos, de modo que eles vos convidem em seguida, a seu turno, e que assim, retribuam o que haviam recebido de vós..." Jesus não está dizendo que não compartilhemos o amor, mas que compartilhemos tudo por amor, desinteressados da volta...

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